Respostas rápidas + julgamento lento = erros graves

Escolas nos Estados Unidos começaram a reverter políticas de digitalização após evidências de que o uso intensivo de laptops em sala não melhorou — e, em alguns casos, prejudicou — o desempenho em matemática e leitura.

O neurocientista Jared Cooney Horvath relatou ao Senado americano que a Geração Z é a primeira a apresentar resultados inferiores aos de seus pais em testes padronizados nessas áreas. Em resposta, alguns estados já retornaram ao papel e caneta, com melhora na compreensão de textos.

 

A digitalização escolar avançou com base na ideia vendida pela indústria de informática de que mais tecnologia significaria melhor aprendizagem. Essa premissa está em xeque justamente agora quando a inteligência artificial passa a ocupar funções críticas, que exigem análise cuidadosa, interpretação e julgamento.

Como observa Carl Benedikt Frey, aqui está o ponto central: diferentemente de computadores e internet, a IA não apenas acelera o trabalho intelectual — ela começa a produzi-lo. E isso muda a natureza do erro.

A IA pode gerar respostas plausíveis, mas incorretas. O problema deixa de ser executar tarefas e passa a ser validar resultados. O gargalo muda: de “fazer” para “certificar”.

E é aqui que as duas tendências se encontram. Se a formação educacional passa a produzir indivíduos com menor capacidade de interpretação, análise crítica e julgamento, a habilidade de detectar erros mais sofisticados — justamente aqueles gerados por IA — também se reduz.

Na onda da IA, tem ganhado força uma estratégia adotada por algumas empresas: reduzir custos substituindo profissionais experientes por mão de obra mais barata e em menor número, que pilotam agentes de IA.

Pode parecer eficiente no curto prazo. Mas, quando o principal risco passa a ser erro invisível — e não ineficiência operacional — essa troca pode sair cara.

O problema não é a IA errar. O problema é não percebermos o erro.

Se o gargalo agora é a validação, e não mais a execução, então a capacidade de julgamento deixa de ser acessória e passa a ser o ativo central.

E este ativo não está, ao que parece, ficando mais abundante.