A ética começa com o questionamento de Sócrates aos seus concidadãos: “o que é uma vida boa?”. Hoje perguntam: “o que é sucesso?”. Todos parecem querer ter (e saliento o “ter”) sucesso mais do que viver bem. Na nossa sociedade laica, materialista e consumista, o sucesso parece ser algo que se pode ter, comprar e mostrar. Ter sucesso é ser ou aparentar ser rico, o que atrai fama e poder. Sim, pois o que aparece é o quanto as pessoas gastam e não o quanto têm ou ganham – isso, muitas vezes, é sonegado. E quanto mais supérfluo ou extravagante o gasto, maior a fama.
Discordo desse senso comum e também não fico apenas na obviedade de dizer que “o sucesso é ser feliz” sem definir o que é felicidade. Respondo, sim, dividindo a questão nos três níveis de inteligência postulados por António Damásio[1]: viver, sentir e saber. Neste mesmo sentido, Aristóteles já caracterizava o homem como um animal social e racional. E recomendava a eudaimonia como a fórmula da felicidade, tratando mais de ser uma pessoa melhor e fazer coisas boas do que ter coisas ou experiências que dêem prazer.
Sucesso, por definição, é alcançar objetivos. No nível mais básico, somos seres vivos cujo objetivo é sobreviver. Sobrevivemos como indivíduos nos protegendo das ameaças e buscando fontes de energia de uma forma determinada pela nossa composição bioquímica. E sobrevivemos como espécie através da reprodução que, no nosso caso, é sexuada.
No segundo nível somos animais sencientes e sociais. Somos capazes de sentir e experimentar emoções que não só ajudam a sobrevivência individual, caso do medo e da agressividade, mas também ajudam a sobrevivência da espécie, caso da compaixão ou da empatia. Neste nível, não somos tão determinados pela natureza e já podemos decidir. Aqui, além da sobrevivência, buscamos também uma boa convivência, podendo optar por emoções e sentimentos mais positivos nos vários grupos em que circulamos. Então, neste nível, o sucesso é cultivar laços de afeição e confiança que sustentem vínculos fortes e relações duradouras.
O terceiro nível, do saber, é o que mais distingue o homem racional dos demais animais. O problema é que nem todas as pessoas são racionais. Sabedoria não é nem informação nem conhecimento. Sabedoria é usar o conhecimento para fazer escolhas melhores. É uma questão de valores, que transcende o eu ou o indivíduo, dizendo respeito à cultura que nos forma e que se transforma pelas nossas obras e nossa reflexão crítica. Nesse sentido, o sucesso é deixar um legado cultural, seja na educação dos filhos ou nos diálogos com amigos, seja, principalmente, em obras que sobrevivam a nós por terem seu valor reconhecido.
Então concluindo, entendo que sucesso tem muito mais a ver com sobrevivência, convivência e sabedoria do que com riqueza ou fama.
[1] Damásio, António. Sentir e saber : As origens da consciência; trad.Laura Teixeira Motta. — 1a ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2022.
Por Jaime Wagner
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