Grupo Malaquias

Eu sempre ajudei de bom grado empreendedores estabelecidos (casos da Elo Sistemas Eletrônicos, Digicon e Elipse)[1] e, justamente por acreditar que empreendedores são aqueles que fazem diferença numa sociedade, havia inspirado a criação da cadeira de Empreendedorismo (pg. 83) no II da UFRGS. Também, lá por 2010, eu já teria duas experiências de investidor anjo junto com o Teixeira – uma malograda (WAPT) e outra patinando (Vakinha). Tinha também a experiência de ter fundado a Digitel e a Altus e do exit bem-sucedido da Plug In.

 
Com isso, eu desenvolvera algumas crenças:

1) além da proximidade com os centros de P&D, o investimento de risco foi fundamental para o florescimento do Vale do Silício como arquétipo do empreendedorismo;

2) o nível de desenvolvimento tecnológico e a disponibilidade (ou disposição) de capital de risco no Brasil eram, comparativamente, muito menores, mas não desprezíveis (minha própria experiência o demonstrava);

3) não é prudente fazer investimento de risco em uma ou duas startups, pois a taxa de insucesso é bem alta;

4) o meu bolso não era tão fundo (ou minhas asas de anjo não eram tão grandes) para suportar sozinho o investimento necessário num número razoável de startups;

5) a capacidade de selecionar boas equipes em termos de tecnologia e capacidade empreendedora, no início de sua jornada, poderia dar ganhos futuros maiores do que investir em empresas já consolidadas, embora apresentasse maiores riscos. A chave para o sucesso seria selecionar os melhores empreendedores e ajudá-los a se viabilizarem e crescerem como empresas.

 
Embora eu considerasse já ter algum discernimento para julgar a capacidade técnica e empreendedora de um grupo de jovens, e que pudesse facilitar seus primeiros passos, já experimentara dissabores (e perda$) no caminho.

 
Criei, então, em 2008 ou 2009, um grupo de discussão por e-mail (ainda não existia o WhatsApp) e convidei algumas pessoas que eu julgava que poderiam montar comigo uma empresa para investir em startups e ajudar no seu crescimento. Dei o nome de Grupo Malaquias, inspirado por um poema do Mário Quintana[2] que eu lera no colégio. O poema conta a história de um “inocentinho”, que, a ponto de ser devorado por um ogro, é salvo por um milagre de Nossa Senhora, que, na pressa, lhe coloca pequenas asas na bunda, mal suficientes para que ele voasse “em esquadro, o pobre, de cabeça para baixo”, janela afora. Ao contrário dos endinheirados serafins americanos, eu esperava juntar um grupo de anjos com asas pequenas no “çul do mundo” (não se trata de erro de grafia, mas de alusão às nádegas do Malaquias).

 
O grupo incluía: André Ghignatti, Paulo Gonçalves, Marcelo Amar, que tinham trabalhado comigo na Digitel e criado a Vanet; Guilherme Ambros, meu aluno que fundara a Plug In e que, depois de sofrer com a quebra do GratisOne, estava nos EUA, trabalhando na Wunderman; o Teixeira, meu parceiro investidor anjo, e o Newton Braga Rosa. (Talvez eu tenha esquecido de alguém mais.) Todos eles estavam envolvidos nos seus próprios negócios, assim como eu na PowerSelf. Tentei fomentar discussões e propor modelos de negócio, mas a troca não vingou e não chegamos nem a fazer uma reunião presencial sobre o tema.

 

Jaime Wagner
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[1] As palavras sublinhadas são links para os locais onde conto as respectivas estórias nas minhas Memórias.
[2] O poema “O Anjo Malaquias” (https://www.recantodasletras.com.br/causos/5166156) se associa ao próprio Mário Quintana, pois Érico Veríssimo dizia que Quintana era, na verdade, o anjo Malaquias disfarçado de homem.