Em 1984, o professor Newton Braga Rosa me convidou para apresentar os produtos da Digitel na sua cadeira de Equipamentos de Processamento de Dados, que eu já havia cursado na pós-graduação e que, com a criação do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), passou a fazer parte da graduação. Eu sempre brinco com o Newton que ele tem uma rara sensibilidade de perceber as grandes tendências e de unir o útil ao agradável, fazendo com que outros trabalhem para (ou com) ele.
Quando eu havia feito essa cadeira, anos antes, Newton convidava empresas como IBM, Burroughs e DEC para apresentarem seus computadores. Normalmente, quem fazia essas apresentações eram profissionais de vendas, que conheciam os usos e aplicações dos equipamentos, mas não necessariamente seu funcionamento ou desenvolvimento.
Com a criação de empresas nacionais de tecnologia, impulsionadas pela Reserva de Mercado, Newton passou a convidar essas companhias para mostrar seus produtos aos futuros profissionais da área.
Ao preparar minha apresentação da Digitel, percebi que muitos dos alunos já tinham cursado minha disciplina de Teleprocessamento. Eles conheciam os modens e equipamentos de comunicação de dados em profundidade, inclusive aqueles que a Digitel fabricava. Fazer uma apresentação comercial para eles parecia pouco útil.
Então, eu perguntei: “O que vocês pretendem fazer depois de formados? Vocês estão estudando para serem empregados? Já pensaram em empreender? Afinal, vocês têm o privilégio de estar aprendendo tecnologias que muito poucas pessoas no Brasil dominam”.
Falei que havia apenas 5 anos eu estava na mesma situação que eles e resolvi contar a história da criação da Digitel e da Altus.
Expliquei as dificuldades e perrengues pelos quais tinha passado e de como isso havia ampliado meus horizontes. Naquela época não existia o termo “startup”, tampouco o ecossistema de inovação que se criou a partir da segunda metade da década seguinte. Inclusive, em nenhuma oportunidade pude contar sequer metade dos episódios marcantes justamente por serem difíceis – mas que depois viram ótimas estórias.
Newton conta que, na hora, ficou aborrecido com a minha subversão. Mas ele tinha o hábito de passar uma avaliação de reação após cada aula e se surpreendeu com o fato de que aquela aula teve a melhor avaliação entre todas. Por esse motivo, o professor teve a sacada de adotar a subversão como uma revolução e criou a primeira cadeira de empreendedorismo na universidade brasileira, passando a convidar empreendedores para contar suas histórias de vida.
Fiquei muito grato quando Newton me convidou para ministrar a cadeira com ele, seja de forma individual ou em conjunto em alguns semestres. Acho que foi mais por causa desta cadeira que fui escolhido como paraninfo ou professor homenageado por mais de uma turma de formandos. Aliás, o Newton foi ainda mais homenageado, creio que pela mesma razão. Ele até passou a presentear a turma e os professores homenageados com uma placa de circuito impresso incrustrada numa pedra, como mostra a figura.
Além das palestras dos convidados, incluí duas aulas no currículo dos semestres sob minha responsabilidade. Em uma aula, o conteúdo era sobre introdução à contabilidade, no qual eu explicava o que era um balanço – sobretudo, um DRE – e suas diferenças em relação ao fluxo de caixa. Dessa forma, eu mostrava que empresas lucrativas podem quebrar por falta de caixa. Em outra aula, eu provocava um brainstorm estratégico em cima de uma matriz FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças) sobre o desenvolvimento de tecnologia no Brasil. Outra mudança que pretendia era trazer pessoas que tivessem histórias de fracassos e quebras para mostrar que isso é do jogo – inclusive, muito frequentemente. Newton desaconselhou por dois motivos: seria difícil encontrar alguém disposto a mostrar esse lado, além de haver a possibilidade de ser constrangedor ou desanimador para os alunos. Concordei, mas até hoje tenho dúvidas. Isto porque, posteriormente, ocorreu um episódio que deu razão ao Newton. Mas antes devo contar sobre o nascimento da empresa envolvida nesse episódio.
Quando dois rapazes me procuraram – possivelmente em 1984 – para que a Digitel investisse e apoiasse a sua empresa de serviços, assim como fizera com a Altus, cujos produtos eles usavam em seus projetos, fiquei impressionado com o talento e capacidade empreendedora da dupla, mas lhes disse que eu não investiria em uma empresa de serviços, que vive entre dois infernos. O primeiro é que faltam clientes (e dinheiro) e os talentos, que demoram tanto para desenvolver, ficam inquietos e, movidos pelo medo, ameaçam ir para a concorrência – ou saem para concorrer. Já no segundo caso, se tem muitos clientes que reclamam de atrasos e erros, fazendo com que os colaboradores reclamam da pressão, posteriormente, saem para a concorrência – ou para concorrer – movidos pelo desejo de melhores condições. Esse era exatamente o caso deles: precisavam de investimento para segurar os talentos, enquanto fechavam grandes projetos que, certamente, iriam ser contratados. Penso que, em geral, em empresas de serviços, o investidor entra com o dinheiro e o empreendedor com a experiência. Após isso, o empreendedor usa o dinheiro e o investidor sai com a experiência. Sugeri, então, que, dada sua capacidade técnica, eles desenvolvessem um produto, que pudesse ser vendido em série, com menor preço e maior volume, além de pouca necessidade de adequação. Além disso, recomendei que focassem mais na venda, que poderia inclusive ser internacionalizada. Eles seguiram minha orientação: desenvolveram o produto, demitiram a maior parte do pessoal e começaram a crescer com lucro. Um deles foi para Miami, nos Estados Unidos, vender as peças. Então, vieram me agradecer e dizer que não precisariam de investimento. Fiquei feliz em ter ajudado, mas um pouco decepcionado por ter perdido esta nova oportunidade de investir em talentos empreendedores.
Voltando ao episódio que deu razão ao Newton. A tal empresa cresceu. Quando os procurei, anos depois, para apresentar seu case na cadeira de empreendedorismo, fiquei sabendo que o sócio que fora para os EUA resolveu fazer uma pós em Harvard, deixou a sociedade e iniciou uma nova startup. Convidei-o para contar sua história, que era muito rica, e ele falou que precisaria voltar a Boston por uns meses para concluir créditos e TCC, mas que ele tinha um sócio de perfil técnico que poderia falar da empresa. O rapaz veio falar para a turma. Era o típico perfil técnico: tímido e introspectivo, sem visão de mercado ou de negócios – não tinha nada do perfil empreendedor que aceita desafios e, ao contrário, parecia amedrontado quando perguntado sobre os problemas de gestão e de mercado que precisam ser vencidos no início de uma startup. Obviamente, não era um líder em quem se pudesse confiar, não entusiasmaria nem colaboradores, nem clientes, nem investidores e muito menos inspiraria alunos a empreender. Foi uma sessão de constrangimento e os alunos avaliaram bem mal a aula. No entanto, penso que, embora não tenham gostado, foi uma oportunidade de aprendizado para eles. Avaliações de reação avaliam a reação emocional positiva e não o real aprendizado. Avaliam se a pessoa gostou e não se aprendeu. Uma aula show que deixe as pessoas felizes e desperte sensações agradáveis será muito bem avaliada. Enquanto uma aula que quebre paradigmas, questione expectativas e mostre realidades desagradáveis, geralmente será mal avaliada. Não creio que o objetivo do ensino seja agradar e acho importante mostrar que a vida empreendedora, ou mesmo a empresarial, não é um mar de rosas como muitos imaginam e almejam, utopia que origina muitas frustrações. Fato é que o Newton vetou a ideia de trazer cases de fracasso, e eu concordei com ele.
Escrito por Jaime Wagner, diretor da Powerself








