A Cauda Longa da Mediocridade

O termo cauda longa refere a estratégia do varejo de vender uma grande variedade de itens onde cada um vende pequenas quantidades, ao invés de vender apenas os poucos itens que vendem muito. O termo foi cunhado por Chris Anderson em um artigo na revista Wired em outubro de 2004, que depois elaborou o conceito no seu livro “A Cauda Longa – do mercado de massa para o mercado de nicho”. A representação gráfica da cauda longa usa a curva de Pareto ou curva ABC. O princípio de Pareto é uma regra empírica que diz que em muitos fenômenos 20% das causas respondem por 80% dos efeitos – a área verde do gráfico, enquanto 80% das causas provocam apenas 20% dos efeitos – a área vermelha. Porém, numa certa inversão da prioridade de Pareto, Anderson chamou a atenção para o fato de que a área vermelha da curva (long tail) é praticamente igual à área verde (head tail).

Se colocarmos no eixo horizontal do gráfico o número de pessoas e no eixo vertical a riqueza, a área verde corresponde às 20% pessoas mais ricas da classe A, enquanto na área vermelha estão os 80% restantes da população: as classes B e C. Da mesma forma, se considerarmos no eixo vertical a qualidade ou sofisticação da cultura, a área verde é a dos 20% mais cultos, que vou chamar de classe Alfa da cultura, enquanto a área vermelha seria a dos 80% da classe Beta.[1]

Há quem discuta se a música erudita tem mais refinamento do que a música popular. Mas creio que se pode afirmar que as melodias mais simples são mais bem memorizadas por qualquer ouvido, mesmo aqueles menos educados. E músicas mais rebuscadas são apreciadas apenas pelos poucos que tiveram uma educação musical. Assim também os conselhos de autoajuda mais óbvios e repetidos são mais inteligíveis para todos enquanto as teorias psicológicas ou filosóficas que lhes servem de base muitas vezes não são fáceis de entender. Mesmo teorias científicas precisam passar por um processo de vulgarização para se tornarem compreensíveis e terem uma aceitação mais geral.

Ao longo da história, a arte, a filosofia e até mesmo a ciência eram artigos de luxo, próprios das classes ociosas e dominantes: sacerdotes e nobres que, se não as praticavam diretamente, financiavam-nas como mecenas. Até porque estas artes e investigações científicas, mesmo sendo instrumentos de dominação ou de ostentação, nunca foram essenciais. A cultura popular, pelo menos a que restou registrada, era a das festividades populares para celebrar eventos e divindades: os circos romanos, a festa da colheita, as festas dionisíacas, o carnaval e outras. As artes que aí se praticavam eram de natureza circense com fins de diversão do povo e não de seu aculturamento. Os saltimbancos que se apresentavam nas praças, mesmo quando faziam teatro, atuavam para distrair, mais como os bobos na corte do que como os artistas do entorno real. Assim, havia uma correlação, mesmo que imperfeita, entre as curvas de riqueza e de cultura. Os ricos financiavam primordialmente a cultura sofisticada e marginalmente a cultura popular.

A sociedade de consumo e a Internet, com a estratégia da cauda longa subverteram esta correlação. Hoje, as grandes marcas financiam um grande número de “artistas populares”, youtubers e subcelebridades cujo valor se mede pelo número de seguidores e não pela qualidade da sua arte ou ciência, pois o maior número de consumidores de cultura está na classe Beta. E, já que na sociedade de consumo a noção de valor é entendida como preço e medida em dinheiro, a cauda longa da mediocridade é hoje tão valorizada quanto a cultura mais sofisticada. Porém, o avanço cultural virá mais provavelmente da porção Alfa, já que a regra da porção Beta é preferir mais do mesmo.

[1] Meu espírito jocoso e trocadilhesco chamaria o fim da cauda Beta da cultura de (analfa) Beta.