Valores: a Bússola da Ação Humana

Dizer que uma coisa é importante ou relevante significa dizer que ela tem valor para nós. Na sociedade de consumo o dinheiro se tornou o solvente universal de todos os valores e para muitos, valor se confunde com preço. Ora, o preço apenas traduz o valor financeiro ou valor de troca, a expressão da escassez de algo, dada pela relação entre oferta e procura. Nem mesmo o valor econômico se traduz em dinheiro. O valor econômico é utilidade, a medida em que algo satisfaz uma necessidade ou desejo. Nem sempre há correlação entre valor econômico e financeiro. Por exemplo, o ar é extremamente necessário para a vida, daí o seu alto valor econômico. Entretanto, como é abundante na Terra, seu valor financeiro é baixo. Já em viagens espaciais gastam-se milhões para conservar uma atmosfera respirável. Existem vários outros tipos de valores: estéticos, religiosos, éticos, econômicos, afetivos etc.

Tudo que fazemos ou tem causas passadas ou tem motivos futuros. Em atos resultantes de causas passadas há pouca ou nenhuma liberdade de escolha. Já nos atos movidos por motivos futuros a liberdade é total ou muito grande. Causas passadas nos movem sob a influência de três forças: o acaso, a lei natural e a lei social. Nossos atos podem ser consequências contingentes, resultantes da ação do acaso. Também nos acontece de sermos movidos como consequência necessária da ação de uma lei natural. Nestes dois casos, nossos atos são coisas que nos acontecem e sobre as quais não temos nenhum controle. Quando se trata de submissão à lei social, o leque de respostas possíveis se amplia. Pode haver a submissão automática da obediência condicionada sem avaliação ou consciência e, obviamente, sem liberdade. Ou pode ser uma obediência avaliada e escolhida conscientemente, onde existe, portanto, liberdade. Mas, ainda aqui, faço distinção entre submeter-se a uma obrigação por prudência ou medo das consequências e cumprir um dever por escolhê-lo como um valor maior. E julgo que a plena liberdade só ocorre neste último caso.

Um motivo futuro é sempre a realização de um valor, que expressa uma preferência. Os valores morais ou éticos consistem em regras ou deveres que regulam a convivência e os costumes dentro de uma sociedade, e que evoluem historicamente, servindo de base para a promulgação de leis. Estes valores pensados são dados pela herança cultural. Mas também a genética nos impulsiona a buscar o prazer e a satisfação de necessidades para a preservação da vida.

Os valores são os fundamentos da ética e da orientação das decisões de uma pessoa e de uma sociedade. Valores dão sentido como orientação e como significado. Valores variam de sociedade para sociedade, de pessoa para pessoa e podem até variar conforme a situação. Toda pessoa tem valores próprios e, embora vivamos por eles e possamos discuti-los, não devemos impor nossos valores aos outros, exceto aqueles resultantes do acordo social ou da moral vigente. Uma coisa é a legalidade – a moralidade das leis, que convém seguir por precaução e boa educação. Outra é a ética pessoal – os valores que a pessoa preza e pratica.

Valores são dados pela sociedade ou pela genética, mas são avaliados e eleitos pelas pessoas que refletem sobre eles. Assim, cada pessoa tem sua escala de valores própria, embora esta nem sempre, ou melhor, quase nunca seja clara. Temos muitos valores, e alguns são mais altos ou mais fundamentais. Toda decisão pode envolver conflito entre valores. O problema não é a escolha entre o que é bom e o que é ruim, mas entre o bom e o melhor. Mais difícil ainda é a opção entre o ruim e o pior – quando a dor ou a perda são inevitáveis. Algumas pessoas se paralisam diante desses conflitos, outras procrastinam a decisão ou esperam que as coisas se decidam por si. Para evitar estes bloqueios que atrasam a vida é preciso refletir sobre a prioridade entre nossos valores. Em momentos críticos, essa prioridade é mais clara. Aliás, crise é a situação que nos força a escolher entre valores caros.

Nem sempre nos damos conta de nossos valores. Por exemplo, por que estamos vestidos? Alguns respondem que isso é natural, porque vestir-se se tornou um hábito automático, sem ver que ao natural nascemos nus. Outros dizem que é para não sentir frio, mas andam vestidos mesmo no verão mais rigoroso. Ainda outros dizem que é porque a nudez é proibida, mas mesmo que a proibição fosse retirada, ainda assim, teriam vergonha até mesmo de ficar em roupas íntimas, embora na praia não sintam a mesma vergonha. A maioria das pessoas não vê que por trás disso está um valor chamado pudor, que nos foi ensinado e que foi entranhado na forma de vergonha. Pudor é um valor que todos temos. Outro valor comum a todos é o dinheiro. Se oferecêssemos uma quantia para quem ficasse agora só em roupas-de-baixo, talvez alguns aceitassem o desafio por R$10mil e outros com maior pudor ou menos ambição ou necessidade não o fariam nem por R$1 milhão. Um valor maior ainda é a própria vida e, provavelmente, poucas pessoas aceitariam arriscar a vida na roleta portuguesa que retira uma bala e deixa 5 no tambor. Entretanto, poucos hesitariam em dar a vida para salvar um filho. Porém, a maioria das pessoas evita escolhas difíceis, e refugiando-se na rotina se desconecta dos seus valores mais altos e adia ou deixa de realizar justamente aquilo que mais valoriza. Por exemplo, a mesma pessoa que não arriscaria a vida por dinheiro, mas daria a vida por um filho, no dia a dia pode deixar de cuidar da saúde e de dar atenção à família porque se afunda na rotina de trabalho apenas para ganhar dinheiro. Muitas pessoas não se dão conta de que deveriam dar mais prioridade às coisas associadas aos valores mais importantes na sua vida, pois nem pensam nisso, afundadas no lodaçal da rotina ou no redemoinho das urgências.

Agimos muito sem pensar e, irracionalmente, fazemos coisas de que depois, diante de consequências que eram previsíveis, nos arrependemos. De fato, nosso comportamento nem sempre se coaduna com aquilo que escolheríamos se refletíssemos mais. A reflexão sobre valores pessoais praticada sistematicamente, alinha o que somos ao que gostaríamos ou deveríamos ser. Pode ser bom para você examinar seus valores e entender se e porque existe essa desconexão no seu caso. Também pode ser benéfico descrever os seus Valores Fundamentais se você não sabe ao certo quais são eles e o que eles significam para você. O Método PowerSelf propõe três exercícios e três ferramentas de auxílio à prática sistemática da reflexão sobre valores pessoais. Os exercícios de Sensibilização, das Rodas da Personalidade e das Virtudes contribuem para o desenvolvimento da Lista de Valores Fundamentais que orienta a avaliação de importância no uso da Matriz Eisenhower para a priorização, e de relevância na Avaliação Semanal de Sentimentos sobre o que aconteceu.

A vontade pode escolher um curso de ação diferente daquele ditado pelos genes ou pela cultura. Entretanto, precisa senti-lo como mais favorável, precisa “valorizá-lo emocionalmente” acima de outras possibilidades conflitantes. O valor que nos faz agir precisa ser sentido como preferencial. Não basta que a sua prioridade seja compreendida logicamente – é preciso que o pensamento influencie o sentimento para que este gere a emoção que movimenta o corpo. E isto só se opera pela repetição daquela constatação lógica na Avaliação Semanal de Sentimentos, como prática da reflexão crítica sistemática. Sem essa reflexão, o valor pensado não terá força para superar os desejos do corpo e os hábitos arraigados. Valores se demonstram no comportamento – na ação e não no discurso. A vontade, que opera os valores na prática, é um sentimento que mobiliza a ação. Pela prática da reflexão este sentimento é influenciado pelo pensamento para não ser apenas uma reprodução de preferências emocionais anteriores.

Assim, agimos para satisfazer desejos que variam ao sabor das circunstâncias e do estado emocional ou para realizar valores mais permanentes, representados por crenças que se pretendem válidas e se sustentam como tal quando examinadas, o que lhes confere uma certa objetividade baseada nas exigências da racionalidade, na necessidade reconhecida, ou ainda na norma social. Pode-se discuti-las e criticá-las a partir de um ponto de vista independente. Lembremos, porém, que essas crenças podem tornar-se convicções intestinas, preconceitos que não admitem questionamento, uma reação natural que é, justamente, aquilo que a reflexão visa superar.