Eu me acuso

Não sei se foi Deng Xiao Ping ou Chu Em Lai quem, perguntado sobre as consequências da Revolução Francesa, respondeu que ainda era cedo para avaliar. A suspensão do juízo, pelo menos em questões de valor, sempre me parece mais sensata do que a convicção do crente ou do militante. Não que eu seja partidário da dúvida cética que relativiza tudo, mas também não sou um idealista que afirma o Bem verdadeiro. Entendo que valores são intersubjetivos e relativos – resultam de um acordo social, cultural e biologicamente condicionado.

Procuro ver sempre os dois lados de qualquer questão e me posiciono radicalmente contra as tentativas mais ou menos violentas de calar o contraditório. Silenciar a crítica pela força física ou policial ou adjetivar negativamente a pessoa que critica são atos que se voltam contra quem os pratica. Ele só se justificariam, talvez, como legítima defesa contra atos equivalentes, mas aí entramos no campo da luta e não mais do debate. Creio que a análise de uma questão é completamente diferente da defesa de uma causa. Aliás, penso que aquela é totalmente desvirtuada por essa.

Porém, a busca ou contemplação da verdade é própria da filosofia e da ciência, que orientam mas não movem. Os motores da vida prática no domínio público são a economia e a política. A decisão e a ação não esperam pela clareza da verdade demonstrada e, no mais das vezes, operam na bruma das opiniões e convicções que se afirmam como verdadeiras mesmo sem demonstração.

Política é o mister de estabelecer regras que balizem a normalidade e decidir prioridades baseadas em valores comuns. Portanto, não há política sem partido – não partido como instituição política, mas partido como tomada de posição. E, na defesa de posições, o debate vira embate, a veemência cala a sensatez, a retórica faz as vezes de conhecimento e a esperteza da virtú maquiavélica substitui o equilíbrio da virtude aristotélica.

Por isso me acuso. Por preferir a dúvida provisória à certeza urgente, me afasto do debate que pretende a vitória rápida mais do que o esclarecimento. E reconheço que, em momentos de crise, esse distanciamento crítico tem um quê, senão de covardia, pelo menos de hesitação, que também é oriunda do medo de errar. Mas, meu medo maior em tempos de radicalização é ferir alguém em nome de uma causa, o que considero mais do que uma injustiça, uma insensatez. Continuo pensando que a busca da melhor solução deve ser serena e que a urgência é muitas vezes um argumento de pressão por mera ansiedade ou excitação e não resulta da iminência de uma grande perda, que é a urgência verdadeira.