Penso, logo desisto

 

Sempre preferi a dúvida ao “parti pris”. Assim, procuro ouvir todos os lados para me manter equidistante, aplaudindo os acertos e criticando os erros de um lado e do outro. Porém o tiroteio é tanto, a torto e a direito, que fiquei zonzo. O problema hoje não é a escuridão da ignorância, mas a ofuscação da avalanche de informação em que 99,9% é lixo e redundância. Cansei! São tantas informações conflitantes, tanta veemência, tantos argumentos contrafactuais! Os vários lados vomitam textos garrafais sem que nada se conclua nesta contemplação de umbigo giratória – cada lado orbitando o próprio umbigo como se fossem astros resplandecentes. Cansei de separar o joio do joio, pois até agora os poucos grãos de trigo que pesquei em cada lado e ousei trazer à luz, ou foram jogados fora pelo descaso, ou foram triturados pela virulência do outro lado.

Sei que a isenção total é impossível, pois no mundo dos valores, campo da ética e da política, sempre há um ponto de vista que valida e valora. Há a grande política das ideias, que infelizmente descamba para a ideologia, a religião da modernidade, e introduz a pequena (e mais frequente) política dos líderes, onde o que importa é a vitória. Qualquer pessoa erra e acerta. Não há santo nem herói e até os malvados acertam de vez em quando. Mas faz parte da ideologia a santificação de um líder a quem se desculpam todos os erros e se louvam todos os acertos como feitos quase sobrenaturais. Assim como na religião, aqui trata-se de converter o maior número de adeptos e submeter ou silenciar qualquer dissidência a qualquer custo – os fins justificam os meios – esta é a virtú maquiavélica. Na grande política, na filosofia e na ética a história é outra: o importante é a verdade e a virtude moral – a violência ou a intolerância só se justificam contra os violentos ou intolerantes. No jogo da pequena política o que interessa é submissão ou voto, não verdade – virtú maquiavélica mais do que virtude moral. O engano da democracia é pensar que o povo tem voz. O povo não participa do diálogo – não tem voz, só voto: adesão ou ruptura. Postar em rede social não avança em nada a compreensão mútua – só ajuda o próprio ego por muito pouco tempo, até sumir na avalanche de opiniões, das mais fundamentadas às mais estapafúrdias.

Tenho até saudade da época em que aceitava a narrativa única com foros de fato. A vida era mais simples. Por isso estou em vias de desistir e escolher um guia para seguir sem me dar ao trabalho de procurar enxergar o caminho.

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