Confiança

O futuro é incerto porque é desconhecido. O melhor sentimento a cultivar em relação ao futuro é a confiança. A confiança está além da esperança e aquém da certeza. Uma potência entre duas impotências. Confiar é diferente de esperar. A esperança não age porque espera – é um confiar no além. A certeza não age porque apenas contempla aquilo que o destino já reserva, e seu resultado é apenas efeito e não sucesso. Reação de um objeto e não ação de um sujeito.

A confiança nos leva a agir apesar do risco e a mudar o curso natural das causas e dos efeitos, alterando as probabilidades a nosso favor. Aliás, só há confiança se há risco, senão já seria certeza. Como confiar na sorte, sabendo que a dor é certa? Como confiar no outro sabendo que o mal existe? Confiantes, entramos no avião ou ligamos o computador. Confiança ou esperança? Quantos milhões de promessas precisam ser cumpridas e quantos acidentes precisam não acontecer para que o avião e a Internet funcionem?

O tal de Segredo, que vendeu muitos livros parece ser esse: o que nos acontece depende de nossa atitude interior, que podemos aprender a controlar conscientemente. Basta confiar em si, no cosmos e nos outros que tudo conspira a favor. Por trás desse psicologismo entusiasmante está uma confiança no poder da mente que beira a esperança. Confiança em excesso é esperança, é fé, é um pensamento mágico, loucura talvez. Nesse aspecto, fico com Epicuro: melhor não temer os deuses, e pensar que sua vontade (boa ou má) é imune à nossa influência. A inspiração do Segredo é a ideia estoica do Logos, que o pensamento moderno desmascarou: pensar que há uma ordem favorável ao homem no universo. O neodarwinismo demostrou que o acaso é criador, e independente de uma intenção anterior. Mas não visa necessariamente o bem-estar da humanidade.

Não há salvação. Não há felicidade plena. A dor é inevitável. Pode-se, no máximo, aprender a suportá-la e ter algum prazer de entremeio. Mas não há satisfação permanente. Esse é o segredo verdadeiro. O mais bem guardado, pois ninguém ousa confessar. Até porque não queremos que nossos filhos saibam, pois, apesar de toda evidência, desejamos para eles a felicidade completa. Não há porque desistir de tentar ser feliz, mesmo sabendo que a dor é inevitável e que a morte é o fim. Não precisamos fingir que isso não é verdade para poder agir e buscar a vida plena. Confiança é exatamente o que nos livra do niilismo cético e da inação diante da dor de saber.

Melhor esquecer? Não! Não há porque fingir não saber para poder confiar. Aliás, a certeza da salvação não é confiança, é fé – a crença contra a evidência. São a dúvida ou a suspeita que nos salvam dessa loucura. Então, confiança nunca pode ser demais, senão vira esperança. E nunca pode ser de menos, senão vira inércia. Não há salvação senão buscar o equilíbrio, sempre instável, sempre tênue, sempre difícil, porque impossível.

Mas ninguém pode ser feliz sozinho. E aí outra incerteza, além do futuro: o outro. Nossa atitude inicial em relação ao estranho é de desconfiança, senão rejeição. Melhor rejeitá-lo ou ignorá-lo antes que ele me rejeite. O grau de confiança entre duas pessoas é determinado pela capacidade de prever o comportamento uma da outra. Tem como base experiências passadas que corroboram um padrão esperado e valores compartilhados e compatíveis. Confiança é o cimento do capital social de uma comunidade, organização ou família, referindo à capacidade de cooperação e acúmulo de conhecimento. Nas trocas interpessoais, Guinnane¹ considera que a confiança resulta da informação que se tem sobre o outro e seu comportamento pretérito, bem como da possibilidade de se impor sanções condignas caso o seu comportamento futuro fuja do padrão esperado.

Confiança é um sentimento e, portanto, a capacidade de confiar também é afetada pelo temperamento de cada um – como cada um lida com o medo. Confiança não é certeza, e há sempre algum elemento de insegurança ou risco no ato de confiar. Entretanto, a segurança que se possa ter diz respeito muito mais à própria capacidade de julgar do que propriamente à outra pessoa. E toda possível decepção é uma oportunidade de aprendizado. Não somente sobre o caráter do outro, mas também sobre as próprias expectativas. Quanto mais segura de si (e do seu conhecimento do mundo) é a pessoa, mais facilidade ela terá para confiar, o que pode chegar às raias da ingenuidade ou da temeridade. Por outro lado, pessoas inseguras têm mais dificuldade para confiar e muitas vezes não conseguem decidir quando há algum grau de incerteza, que sempre está presente em relação ao futuro e ao comportamento do outro.

O que diferencia um time de um bando não é a existência de um líder ou de um objetivo, mas de confiança. Pense num bando de crianças jogando futebol. Ninguém guarda posição, todos correm atrás da bola na defesa e no ataque. Há um objetivo (o gol), pode até haver um líder (o dono da bola ou o melhor jogador), mas não há confiança. Logo, não há equipe, mas apenas um conjunto de indivíduos. A construção de confiança é o processo de construção de uma equipe. Num grupo onde as pessoas são indiferentes umas às outras a colaboração se resume à divisão do trabalho. Cada um faz sua parte e o resultado do todo é igual à soma das partes (1+1=2). Numa equipe, a confiança gera sinergia. Um ajuda o outro a crescer nas suas capacidades e possibilidades, o que aumenta a confiança de cada um em si mesmo, bem como a confiança mútua, que é o sentimento de participação de um grupo com expectativas e valores comuns. Com isso, o resultado do time é maior do que as possibilidades originais dos indivíduos isolados – o todo é maior do que a soma das partes (1+1>2). Num bando, não há confiança. Ninguém ensina ao outro para não perder posição. Todo trabalho é monitorado de perto, senão refeito, várias pessoas batem cabeça para fazer o trabalho que uma só faria. A falta de confiança gera entropia, isto é, o resultado do todo é menor do que a soma das partes (1+1<2).

A confiança é uma atitude diante da vida relacionada à segurança intrínseca que o indivíduo carrega em si mesmo, uma autoestima que se forma na relação social de reconhecimento. Essa segurança é, no fundo, dependência: só nos sentimos seguros porque nascemos no seio e somos parte de uma teia de relações que nos sustenta e nos confirma emocionalmente. É uma segurança emocional que, paradoxalmente, é dada pela firmeza dos vínculos que sustentam a participação na teia de relações que constitui a família ou o grupo. A iniciativa da ação precisa vencer a inércia e a inibição naturais, requerendo aquilo que Honneth chama de “autoconfiança básica” [Selbstvertrauen: “confiança em si mesmo”], que “tem a ver menos com uma alta estima das próprias habilidades do que com a capacidade de expressar necessidades e desejos sem medo de ser abandonado em virtude disso.” ²

Confiança, então, é, essencialmente, autoconfiança ou segurança, e sua virtude está no meio termo entre os vícios da falta de confiança (insegurança e hesitação) e do excesso de confiança (ingenuidade e temeridade). Sem confiança não se age. Com excesso de confiança a gente se quebra.

1 (GUINNANE, 2005)
2 Honneth pg. xiii – trad. minha)

Referências:

Guinnane, Timothy W. “Economic Growth Center.” Feb 2005. Yale University. (http://www.econ.yale.edu/growth_pdf/cdp907.pdf)

Honneth, Axel. The Struggle for Recognition: The Moral Grammar of Social Conflicts. Trans. Joel Anderson. Cambridge: The MIT Press, 1995.

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